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quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

“É a fé que pode dar à razão (aos filósofos) a coragem de pensar até o fim e não desabar na desconstrução niilista”.

Fonte: IHU

O desafio para a filosofia atual é ter mais audácia. É preciso não se deter na superfície. É preciso colocar os problemas fundamentais que dizem respeito à existência dos homens. É preciso ousar pensar.

Para o jesuíta francês Prof Dr Paul Valadier, esse programa proposto até mesmo por papas filósofos como João Paulo II e Bento XVI visa a colaborar com a razão, para que não seja “esmagada pela amplitude dos problemas enfrentados pela humanidade atual: não somente a ecologia e o futuro do planeta, mas o encontro das culturas e das religiões”, afirmou.

Para Valadier, mestre e doutor em teologia pela Faculdade Jesuíta de Lyon, teologia e filosofia se tornam essenciais uma à outra na época atual. A filosofia ajuda e estimula a teologia a não “soçobrar nos diversos iluminismos ou integrismos que também caracterizam a atualidade da vida eclesial”. Segundo Valadier, se existe uma tradição católica forte, isso se deve ao seu “respeito pela razão em todo o seu alcance, sem a qual a fé soçobra no vazio”.

“Muitos suspeitam da filosofia moderna por seu ceticismo, seu relativismo, seu agnosticismo, e mesmo por seu ateísmo. Mas uma fé viva deve poder enfrentar estes sistemas, não para esmagá-los por sua suficiência, mas para compreender suas lógicas e aprender a situar-se em relação a elas”, afirma o filósofo especialista em Friedrich Nietzsche, e que foi durante oito anos chefe de redação da revista francesa Études. “Talvez seja a fé que pode dar à razão (aos filósofos) a coragem de pensar até o fim e não desabar na desconstrução niilista”.

O desafio das religiões, nesse contexto, é “encarar as nossas diferenças e não procurar apagá-las. A paz e o entendimento só podem nascer da consciência compartilhada de nossas (legítimas) diferenças”, esse é “o mundo pluralista no qual nós devemos viver e no qual é preciso procurar paz e concórdia entre todos os povos e todas as religiões”.

Por isso, explica, a maior contribuição das religiões monoteístas na atualidade é o seu encontro – nas palavras de Paul Ricoeur – no “conflito das interpretações”. Assim, afirma Valadier, as religiões podem responder às suas “pretensões de universalidade”, contribuindo “de maneira eminente ao fortalecimento da comunidade internacional e de seu direito”.

O cristianismo, especificamente, “pode lembrar oportunamente que o indivíduo, considerado como um átomo separado é apenas uma ilusão inconsistente. A pessoa humana nasce e se desenvolve nas relações, e somente nelas”,”Se ela se crê ’soberana’ ou ‘autônoma’, ou seja, sem elo ou sem alteridade, ela se perde e se torna ‘escrava’ de suas pulsões”.

Portanto, o cristianismo, “professando que todo ser humano é amado por Deus (eleição divina), indica o valor da pessoa e nela suscita uma vontade criadora que não se abandona, mas procura responder positivamente à sua vocação”, diz Valadier.

Com relação aos desafios e perspectivas de futuro, em uma realidade em que a Igreja Católica passa por um declínio na Europa e está “em plena florescência” na Ásia e na África, Prevê que “o centro de irradiação da Igreja Católica não será mais a Europa, como antigamente, mas será, cada vez mais, a Ásia, a África e a América Latina“

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Os religiosos e sua relação com a Igreja e o Bispo local. Vaticano se manifesta.



Os religiosos devem obedecer aos bispos, recomenda a Congregação para a Vida Consagrada e as Sociedades de Vida Apostólica. “É fonte de perplexidade que os religiosos não participem das estruturas de consulta e de colaboração da Igreja particular, como os encontros de decanato, as assembleias pastorais, as jornadas de formação”.

Além disso, é direito de um bispo ser consultado quando um instituto religioso “vende um imóvel, retira um pároco ou um vigário, ou decide deixar a diocese”. Portanto, as ordens religiosas não poderão mais se defender atrás do escudo da isenção. É o fim dado pela Santa Sé às igrejas paralelas “faça você mesmo”.

“Houve algumas declarações infelizes por parte de alguns que afirmavam ser porta-vozes de uma ‘Igreja profética’, que, por sua natureza, deve se opor à hierarquia”. Quase como se “pudessem subsistir como duas realidades diferentes, uma carismático, a outra institucional, enquanto ambos os elementos, ou seja, os dons espirituais e as estruturas eclesiais, formam uma única, embora complexa, realidade”. [grifo meu]

Há muito tempo, chovem no Vaticano, especialmente da Áustria e da América do Sul, notícias alarmantes de sacerdotes dissidentes que fazem com que leigos celebrem a missa e que admitem os divorciados em segunda união à comunhão, de mosteiros e conventos que atuam sem dialogar com o bispo e de inveterados abusos litúrgicos. [grifo meu]

O secretário da Congregação dos Religiosos, monsenhor Joseph Tobin, comunicou aos superiores maiores o “alto lá” do papa aos desvios das regras. Mostrando os elementos de dissonância recíprocos, a Santa Sé colocou sob observação a fraca colaboração entre Igreja local e vida consagrada para “superar uma tendência a uma forte separação entre sacerdotes religiosos e diocesanos”. O objetivo é redescobrir a “missão comum do cuidado das almas”.

O Vaticano condena o fato de ter se desenvolvido, entre os sacerdotes provenientes de institutos religiosos, “a tentação de um fechamento em si mesmos, manifestada, por exemplo, na não colaboração com a Igreja local a respeito de certos pedidos pastorais que não invalidam o fato de poderem viver seu próprio carisma, ou na não participação nas várias iniciativas empreendidas pelas dioceses”. [grifo meu]

Uma outra tentação, de acordo com o “número dois” do dicastério vaticano, que está presente hoje dentro dos sacerdotes que pertencem à vida consagrada com relação à Igreja local, oposta à anterior, se dá pelo fato de “não viver plenamente o próprio carisma, por causa da excessiva generosidade com a qual se quer responder às exigências sacramentais presentes nesse determinado território”. A urgência agora é de “aumentar, acima de tudo, um conhecimento entre sacerdócio religioso e diocesano e também uma efetiva colaboração”.

Por isso a Santa Sé pede “uma ação de diálogo entre essas duas realidades eclesiais”. Esse diálogo deveria se desenvolver sobre quatro características fundamentais que são: a clareza, a confiança, a mansidão e a prudência.

É preciso que “as estruturas voltadas ao diálogo entre Igreja local e vida consagrada” tenham como fundamento “a busca da comunhão recíproca na Igreja”. No centro de tudo, deve haver “a escuta das pessoas e sobretudo das necessidades mais profundas do homem moderno e a busca da verdadeira Sabedoria para saber ler os acontecimentos que ocorrem na história através dos olhos de Deus”.

A vida consagrada tem “uma missão viva dentro da sociedade, que é a de saber reconciliar o homem com Deus”. Para realizar isso, os consagrados, especialmente os sacerdotes, “devem aprender de Jesus o mesmo olhar que Ele tinha quando estava no mundo e olhava para a humanidade que se apresentava diante dele”.

É importante, portanto, que a vida consagrada “saiba pôr-se em uma atitude de verdadeira escuta ao homem hodierno e às suas problemáticas que ele traz consigo no seu caminho existencial”. E se o tempo histórico atual apresenta muitas dificuldades, “elas só não desanimam a Vida Consagrada se ela souber adquirir aquela Sabedoria com a qual ela saberá julgar os problemas hodiernos com esperança”.


Essa esperança “nasce da força do carisma, que é o instrumento com o qual é preciso considerar todas as coisas através dos olhos de Deus e com a confiança de que o Senhor, mesmo no tempo hodierno, está preparando algo para todas as pessoas, que nós, porém, imediatamente, ainda não conhecemos”. Portanto, a “vida consagrada, centrada em Cristo, saberá realmente oferecer ao tempo hodierno a sua presença vivificante, sapiencial e profética”.



 

sábado, 5 de novembro de 2011

"O silêncio não vai ajudar a Igreja”, diz padre Paulo Ricardo

ESCRITO POR PAULO BRIGUET | 05 NOVEMBRO 2011



“A sociedade está em crise porque os líderes morais que poderiam dar uma orientação às pessoas estão calados. Alguém tem de pagar o preço de falar. Mesmo sabendo que, ao falar, a pessoa vai sofrer o martírio dos tempos modernos”. 
É o que afirma o padre Paulo Ricardo de Azevedo Júnior em entrevista a Paulo Briguet, do Jornal de Londrina.

Paulo Ricardo de Azevedo Júnior é um padre no sentido pleno da palavra. E não apenas por usar batina. Eis um padre que segue o catecismo, o missal e a doutrina católica. Um padre que defende a Igreja e o papa. Um padre estudioso e com grande domínio da palavra. Um padre que conhece profundamente as questões canônicas. Um padre que fala de vida espiritual. Um padre que não ignora este mundo, mas sem jamais esquecer o outro. Um padre que não se furta a criticar outros sacerdotes, sobretudo o chamado “clero progressista”, ligado à teologia da libertação. Um padre à maneira antiga – tão antiga quanto os 2 mil anos da Igreja Católica. [grifo de Jailson Morais]
Com todas essas qualidades, o padre Paulo Ricardo está fazendo um grande sucesso com seu trabalho de evangelização na internet. Através do site padrepauloricardo.org, ele diz o que pensa para um público cada vez mais amplo – e constituído em grande parte por jovens.
Nascido em novembro de 1967, o padre Paulo Ricardo foi ordenado em 1992, pelo papa João Paulo II. É bacharel em Teologia e mestre em Direito Canônico pela Pontifícia Universidade Gregoriana (Roma). Membro do Conselho Internacional de Catequese, nomeado pela Santa Sé, pertence à Arquidiocese de Cuiabá (Mato Grosso). É autor de diversos livros e apresenta o programa semanal “Oitavo Dia”, pela Rede Canção Nova de Televisão.
Durante uma visita do padre Paulo Ricardo por Londrina e região, em setembro, o JL realizou a seguinte entrevista. Entre os assuntos abordados, o papel dos cristãos na sociedade contemporânea e uma relação especial com a cidade de Londrina.


JL: Em 2005, o sr. passou por uma experiência pessoal muito importante em Londrina. O que aconteceu? E de que forma essa experiência o marcou? 


Padre Paulo Ricardo: Há seis anos, eu estava vindo de São Paulo e o avião fazia escala em Londrina, indo para Cuiabá. Aconteceu que o avião atrasou, tivemos que ir para o hotel. Depois voltamos para pegar o avião outra vez. Uns cinco minutos depois da decolagem, houve um estouro na turbina direita. Trinta segundos depois, um novo estouro. Ninguém sabia o que estava acontecendo. O pessoal ficou apavorado. O avião continua estável, o que se via claramente. Fiquei pensando: vou observar. Se eu notar que vai ocorrer o pior, dou a absolvição coletiva.

Enquanto eu não sabia o que estava acontecendo, fiz meu ato de contrição, pedi a Deus perdão do meu pecado – e esperei. Enquanto esperava, pensei que havia sido prudente inutilmente. Agora eu estaria me apresentando diante de Deus, Deus iria pedir conta do meu ministério, e eu fui prudente a vida inteira, porque queria ser bispo, queria fazer carreira, não queria me queimar. Dali para frente aquilo marcou. Dali para frente eu vi que era um homem morto. Deus me disse assim: “O que eu havia previsto para você eram somente estes anos de sacerdócio, agora você vai morrer, acabou, e você não deu conta do recado. Você escondeu seus talentos”.
Dali para frente resolvi me considerar um homem morto. Porque Deus estava me dando uma segunda chance. Eu não poderia mais me colocar numa situação de prudência, pensando no futuro. O bom soldado, quando vai para a guerra, não tem que se preocupar em voltar para casa. Ele tem que se preocupar em sobreviver o maior tempo possível para fazer o maior estrago para o inimigo. O soldado sabe que um dia vai levar um tiro e um dia vai sair de ação.
Esse foi meu exame de consciência: o sacerdócio é um dom, e um dom não é algo para ser guardado. Dali em diante, eu vi que a minha batina não é um enfeite, ela é uma mortalha. O sacerdote é um homem que deveria ter morrido para o mundo; se ele não morreu para o mundo, o que está fazendo aí? Afinal de contas, a Igreja e o sacerdócio ou servem para o Céu, ou não servem para nada, podem fechar as portas.
JL: E de que maneira a Igreja Católica pode assumir a sua verdadeira missão?



Padre Paulo Ricardo: A grande dificuldade é que a Igreja, nas últimas décadas, introjetou a acusação dos marxistas – de que “a religião é o ópio do povo”. Ela se sente culpada de falar do Céu, de salvação eterna, de felicidade futura. E tenta desconversar com uma suposta doutrina social. Você vai para a Igreja e dizem que a finalidade da religião é “fazer um mundo melhor”. Ora, mas essa não é a finalidade da Igreja! Bento XVI, na encíclica “Spe Salvi”, que houve uma imanentização da esperança cristã. A esperança cristã era voltada para o Céu, agora a gente espera a coisa aqui na Terra. A gente espera um mundo ideal, um mundo melhor, em desfavor da transcendência.

Paulo Briguet: Foi a partir desse episódio que o sr. iniciou o trabalho de evangelização na internet?



Padre Paulo Ricardo: Na verdade, a coisa foi gradual. O episódio do avião foi em 2005. Existem conversões fulminantes, como a de São Francisco – o homem que um dia era pecador, no outro era virtuoso. Comigo não foi assim. Ou melhor: comigo não está sendo assim – porque ainda não terminou. Sempre fui um menininho comportado, conservador, usava traje social, camisa de manga comprida... Quando entrei no seminário, logo veio a tentação da carreira. Eu me saía melhor nos estudos; era apreciada pela maneira como falava; comecei a pensar numa carreira dentro da Igreja. Fui para Roma, fiz Teologia lá. Vivia mais no Vaticano do que Universidade, sempre metido com cardeais e gente importante. Quando fui ordenado padre pelo papa João Paulo II, passei a desempenhar algumas funções menores na Santa Sé, nada muito importante. Minha pretensão era voltar ao Brasil, servir a diocese por um tempo e depois fazer carreira no Vaticano. Mas aconteceu que em 1997, tive uma experiência de conversão. Uma experiência com Santa Teresinha. Ali eu comecei a perceber que não poderia ser padre sem abraçar uma cruz. Não poderia transformar o sacerdócio numa carreira. Entendi que o sacerdócio não era um homem, mas o sacrifício de um homem. Passei a me voltar mais para Deus, para a espiritualidade. Eu já era padre há cinco anos. Em 2002, eu conheci pela internet o filósofo Olavo de Carvalho e comecei a ler tudo que ele escrevia. Foi como se escamas caíssem dos meus olhos. Você descobre por que apanhou a vida inteira: você descobre por que lutava numa argumentação, vencia os debates, mas nada mudava. A partir disso, passei a ver que as razões verdadeiras não eram as razões apresentadas em discussões. Tem sempre algo debaixo da mesa. Tem sempre a má intenção por trás – o que é típico da mentalidade revolucionária. Em 2005, houve o episódio do avião. De 2005 para frente, eu passei a ser muito mais claro no que dizia. A partir daí comecei a realizar uma pregação mais clara contra a corrente geral.

JL: Como o sr. definiria hoje o seu papel na Igreja? 



Padre Paulo Ricardo: Hoje eu vejo que não nasci para ser bispo. Que nasci para ser pai de bispo, ou seja, formar uma geração de novos padres – e, um dia, um deles será bispo. Um dia algum deles vai ajudar a Igreja no episcopado. Para mim, o importante é saber agora que o silêncio não vai ajudar a Igreja. A gente vê no jovem a gratidão imensa quando você fala.

O filósofo Eugen Rosenstock-Huessy, pouco conhecido no Brasil, analisa as doenças da linguagem. Uma delas é a guerra; outra é a crise. O que caracteriza a guerra? A guerra é quando eu não quero ouvir o meu inimigo. Já a crise é o contrário: é não falar ao amigo. Meu amigo precisa de minha ajuda, eu sei onde está a solução, mas por conveniência eu calo. Assim a sociedade entra em crise. A sociedade está em crise porque os líderes morais que poderiam dar uma orientação às pessoas estão calados. Alguém tem de pagar o preço de falar. Mesmo sabendo que, ao falar, a pessoa vai sofrer o martírio dos tempos modernos, como o papa Bento XVI descreve com muita clareza, até porque ele mesmo é vítima desse processo.
O martírio dos tempos modernos é o assassinato da personalidade. É transformar o sujeito em não-pessoa. É a calúnia, a perseguição. Você vai sendo fritado. Então, hoje nós precisamos na Igreja do Brasil de padres e bispos mártires. Uso sempre a palavra profético, mas a palavra mais adequada seria mártir. Martyrios em grego quer dizer testemunha. Alguém que crê tanto no Reino do Céu que está disposto a desprezar o reino dos homens.
JL: Há uma guerra cultural em curso no Brasil de hoje, à semelhança do conflito que Peter Kreeft identificou na sociedade norte-americana?



Padre Paulo Ricardo: Existe uma guerra cultural incipiente no país. Ao contrário do que ocorre nos Estados Unidos, a esquerda brasileira conseguiu a hegemonia da mídia. Em todos os âmbitos. Qualquer um que seja oposição só tem um espaço de militância atualmente, que é a internet. Basicamente esse é o espaço que nos concedem – ainda. A esquerda diz que a revolução só pode ser alcançada se houver um período que a precede, chamado de acumulação de forças. Nós estamos no período de acumulação de forças. Ainda não existe guerra de fato. Guerra supõe exército dos dois lados. O que existe é um exército que invadiu e ocupou o país. Nós temos uma ocupação hegemônica da esquerda. Mas a geração está sendo formada. Bento XVI, nesse sentido, foi o homem da Providência para a Igreja e para o Brasil. É preciso recomendar que o cardeal Joseph Ratzinger foi o homem que condenou a Teologia da Libertação. Antes, quando se citava o cardeal Ratzinger, tudo quanto era bispo e padre aqui no Brasil dizia que isso era uma “visão radical”. Hoje em dia, cita-se Bento XVI e todos têm que ficar calados, porque não podem dizer que o papa é radical. O papa nos deu carta-branca. Está servindo como escudo para que a gente possa agir. Dentro do meu ministério, eu sempre tenho como diretriz lutar as lutas que o papa está lutando. De tal forma que o bom católico veja que eu não estou seguindo uma ideologia; eu estou seguindo a fé da Igreja de 2000 anos. A hegemonia esquerdista no Brasil é tal que a pessoa que pretende ser católica se sente um peixe fora d’água. A oposição ao pensamento do papa é tão grande que a maior parte dos jovens se sentiria fora da Igreja. A esquerda católica nos acusa – a nós que somos fiéis a Bento XVI – de estarmos fora da Igreja. Mas já que o papa está ao nosso lado e nós estamos ao lado do papa, eles não podem mais dizer isso.

JL: O sr. sempre diz que no Brasil tenta-se impor uma minoridade social aos católicos. Em que consiste esse processo?



Padre Paulo Ricardo: É a chamada ideologia do Estado laico. Segundo essa ideologia, qualquer pessoa que tenha uma visão religiosa do mundo deve guardá-la para sua vida privada. Para os defensores dessa ideologia, a religiosidade não tem espaço público, não tem cidadania. Uso essa expressão – minoridade – para dizer que nós somos cidadãos brasileiros como os menores de idade. Mas nem todos os nossos direitos são reconhecidos. Os menores de idade não podem votar, não podem dirigir carro, têm direitos e responsabilidades limitadas.

Há um grupo que se apossou da “classe falante” e não nos dá direito de falar e expressar nossas opiniões – porque nós somos religiosos. O fato é o seguinte: o ateísmo é uma atitude tão religiosa quanto o catolicismo, pois vê o mundo a partir de um prisma religioso, a não-existência de Deus. Não existe alguém indiferente ao problema religioso. Se você varre do espaço público qualquer manifestação religiosa, não está colocando o Estado nas mãos de uma visão religiosamente isenta; você está impondo uma religião que se chama materialismo ateísta. Os ateus não são cidadãos de primeira categoria e nós não somos cidadãos de segunda categoria. Eles são tão cidadãos quanto nós; têm o direito de ser ateus. Só que, numa democracia, quem dá o tônus do ambiente cultural é a maioria. A maioria esmagadora da população brasileira é extremamente religiosa. Portanto, nós não temos por que ficar amordaçados por uma minoria de ateus militantes. [grifo de Jailson Morais]
Publicado no Jornal de Londrina.

terça-feira, 25 de outubro de 2011

O Rosário é Bíblico?

A intenção do texto não é esgotar a teologia em torno do Rosário, mas apenas demonstrar superficialmente que não existe oposição entre esta devoção e a Palavra de Deus, como julgam alguns hereges.

Vários protestantes têm uma grande pulga atrás da orelha com o rosário. "Como é antibíblico!", dizem eles. Pois bem, é hora de analisar o Rosário e ver o que a Bíblia tem a dizer sobre este assunto.



O Rosário é uma coleção de orações individuais:


1 - O Credo
2 - O Pai-Nosso
3 - A Ave-Maria
4 – Glória
5 - Salve Regina

1. O Credo Apostólico

"Creio em Deus-Pai, todo-poderoso, criador do céu e da terra, e em Jesus Cristo, seu único Filho, nosso Senhor, que foi concebido pela Virgem Maria, padeceu sob Pôncio Pilatos, foi crucificado, morto e sepultado, desceu à mansão dos mortos e ressuscitou ao terceiro dia. Subiu aos céus e está sentado à direita de Deus-Pai todo-poderoso, donde há de vir a julgar os vivos e os mortos. Creio no Espírito Santo, na Santa Igreja Católica, na Comunhão dos Santos, na remissão dos pecados, na ressurreição da carne, na vida eterna. Amém."

Este é um dos credos mais antigos que se conhece. Foi inicialmente usando pelos cristãos de Roma. Não há nada antibíblico nele. A única coisa que alguém poderia objetar seria a expressão "creio...na Santa Igreja Católica". Bem, a primeira pessoa a utilizar a expressão "Católica" (palavra grega para "geral, universal") foi Santo Inácio de Antioquia em sua carta aos Esmirnenses. Ele morreu em 107 A.D., o que nos faz tirar a lógica conclusão que tal designação para a igreja já era utilizada desde antes. Ele utilizou este termo para diferenciar a Igreja fundada por Cristo e pelos apóstolos das outras igrejas e filosofias heréticas que estavam aparecendo.

2. O Pai-Nosso

Bem, nada de antibíblico aqui. Sem comentários mais.

3. A Ave-Maria

"Ave, Maria, cheia de graça, o Senhor é contigo. Bendita sois vós entre as mulheres, e bendito é o fruto do teu ventre, Jesus. Santa Maria, rogai por nós, pecadores, agora e na hora da nossa morte. Amém".

Isto coloca um bom problema aos protestantes. Porquê? Veja o que a Bíblia diz sobre isso (versão KJV):

"E o anjo veio sobre ela, e disse, Ave, tu que és grandemente favorecida, o Senhor está contigo. Bem-aventurada és tu entre as mulheres". (Lc 1,28)

São Jerônimo, um dos primeiros Pais da Igreja, traduziu a Bíblia grega para o latim, e a melhor forma de traduzir para o latim a forma "grandemente favorecida" foi "gratia plena", que significa "cheia de graça". Isto denota muito bem o estado de Maria, "cheia de graça", sem pecado.

Desta forma, a primeira parte da Ave-Maria não deixa problema algum. E quanto à segunda parte?

Santa Maria? É esperado que, sendo Maria a mãe do "Santo dos Santos", ela seja também uma pessoa santa. Isto não pode ser problema para os protestantes, que acreditam que todos os cristãos são santos, de uma forma ou de outra, no mínimo.

Mãe de Deus? Maria é a mãe de Jesus, certo? Jesus era uma pessoa divina com uma natureza divina e humana. Maria "assim como fazem todas as mães" deu a luz à pessoa, não à natureza. E a qual pessoa ela deu à luz? Uma pessoa divina. Logo, Maria é a mãe de Deus.

Rogai por nós, pecadores? Pedimos que Maria ore por nós. Mas ela não está morta? Não de acordo com a Bíblia (Mc 12,26-27; Mt 27,52-53).

Nós devemos orar pelos outros, diz Tiago (Tg 5,16). Ora, mas Jesus não é o único mediador? Sim, assim como Ele é o único rei, o único Senhor, o único sacerdote, etc...E enquanto partilharmos deste seu sacerdócio e reinado, também partilhamos desta única mediação.

Agora e na hora de nossa morte? Oh-oh!, como Maria sabe quando morreremos? Bem, ela possui a visão beatífica (1 Cor 13:12; 2 Pd 1:4), e além do mais, não existe época no paraíso, somente eternidade e, portanto, nem Maria ou os anjos estão sob o limite do tempo e por isso podem ouvir todas as nossas orações.

4. Glória

"Glória ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo, assim como era no princípio, agora e sempre. Amem".

Pequena e linda oração. Ninguém reclame dela.

5. Salve Regina (Salve Rainha)

"Salve Rainha, mãe de misericórdia, vida, doçura e esperança nossa. Salve! A vós bradamos os degredados filhos de Eva. A vós, suspirando, gemendo e chorando neste vale de lágrimas. Ei-a pois, advogada nossa, esses vossos olhos misteriosos a nós volvei. E depois deste desterro, mostrai-nos Jesus. Bendito é o fruto do teu ventre. Ó clemente, ó piedosa, ó doce sempre virgem Maria. Rogai por nós, santa mãe de Deus, para que sejamos dignos das promessas de Cristo".

É bem complicado, vamos com calma.

Rainha? Considere que Jesus, Rei dos Reis, nunca foi casado. Se um rei não possui esposa, quem, portanto, é a rainha? Sua mãe! E isto se aplica aqui.

Vida, doçura e esperança? Isto diz respeito à mediação de Maria, assunto que não abordaremos neste texto pela sua natureza mais profunda. Chamamos Maria desta forma porque ela é a causa, estritamente na forma subordinada "claro", da nossa salvação, vida, doçura e esperança (que é Jesus).
Vossos olhos misericordiosos? Maria, como imaculada, tem misericórdia de seus filhos. Lembrando que todos somos seus filhos. Ela é nossa mãe, porque somos parte do corpo de Jesus, nascido de Maria.

Clemente, piedosa, doce? Quem nega que a mãe de Jesus é clemente? Ou piedosa? Ou doce? Minha mãe (carnal) é! Quanto mais com um filho como Jesus, o filho de Deus!

Como vimos, são várias orações. Claro, existem entre nós questões sobre o rosário, como apontam alguns quando dizem que Jesus nos recomendou não rezar em "vãs repetições" como fazem os gentios (Mt 6,7).

Mas notem todos que Jesus não condena as repetições, somente as que são "vãs". Se nós condenamos católicos bêbados, não estamos condenando todos os católicos que bebem e nem significa que todos os católicos "são" bêbados. Isto somente significa que aqueles católicos que "estavam" bêbados são condenados. Aqui é a mesma coisa. Jesus disse para não rezarmos as repetições "que são vãs", ou sejam, de nada adiantariam. E porque o rosário não é incluído nestas "vãs repetições"? Porque nele nós meditamos os mistérios da vida, morte e ressurreição de Cristo, e isto nunca será "vão". A Ave-Maria somente é a base para todos estes mistérios. Nunca se acreditou que se consegue alguma coisa com uma certa quantidade de orações. O Rosário bem recitado é aquele bem meditado, com concentração. Onde as palavras não são somente balbuciadas, mas rezadas com fé.

Então, da próxima vez que alguém se dizer um cristão, pergunte como honra a Maria. Se disser "não, obrigado, não sou idólatra, somente honro a Jesus", pergunte então porque a Bíblia nos pede para honrarmos os santos (1 Pd 1,6-7), e porque Maria é tão "grandemente favorecida".

"Doravante, todas as gerações me proclamarão bem-aventurada" (Lc 1,48).

Traduzido para o Veritatis Splendor por Rondinelly Ribeiro Rosa.

sexta-feira, 30 de setembro de 2011

São Jerônimo de Stridone

Hoje, centraremos nossa atenção em São Jerônimo, um Padre da Igreja que colocou a Bíblia no centro de sua vida: traduziu-a para a língua latina, comentou-a em sua obra e sobretudo se empenhou em vivê-la concretamente em sua longa existência terrena, não obstante o notável caráter difícil e caloroso que recebeu da natureza.

Jerônimo nasceu em Stridone em 347, de uma família cristã, que lhe assegurou uma formação apurada, enviando-o a Roma para aperfeiçoar seus estudos. Quando jovem, sentiu a atração pela vida mundana (cf. Ep. 22,7), mas prevaleceu nele o desejo e o interesse pela religião cristã.

Recebeu o batismo em 366, orientou-se à vida ascética e foi viver em Aquiléia, inserindo-se num grupo de fervorosos cristãos, por ele definido quase como «um coro de beatos» (Chron. ad ann. 374) reunido em torno do Bispo Valeriano. Partiu depois para o Oriente e viveu como eremita no deserto de Calcide, ao sul de Aleppo (cf. Ep. 14, 10), dedicando-se seriamente aos estudos.

Aperfeiçoou seu conhecimento do grego, iniciou o estudo do hebraico (cf. Ep. 125, 12), transcreveu códigos e obras patrísticas (cf. Ep. 5, 2). A meditação, a solidão, o contato com a Palavra de Deus fizeram-no amadurecer sua sensibilidade cristã. Sentiu fortemente o peso das transgressões juvenis (cf. Ep. 22, 7) e experimentou vivamente o contraste entre a mentalidade pagã e a vida cristã: um contraste que ficou famoso pela dramática e vivaz «visão», da qual ele nos deixou o relato. Nela, pareceu-lhe ser flagelado na presença de Deus, porque era «ciceroniano e não cristão» (cf. Ep. 22, 30).

Em 382 transferiu-se a Roma: aqui, o Papa Damaso, conhecendo sua fama de asceta e sua competência de estudioso, nomeou-o secretário e conselheiro; encorajou-o a empreender uma nova tradução latina dos textos bíblicos por motivos pastorais e culturais. Algumas pessoas da aristocracia romana, sobretudo nobres mulheres como Paola, Marcella, Asella, Lea e outras, desejando empenharem-se no caminho da perfeição cristã e de aprofundar seu conhecimento da Palavra de Deus, escolheram-no como seu guia espiritual e mestre na aproximação metódica dos textos sacros. Estas nobres mulheres aprenderam também o grego e o hebraico.

Depois da morte do Papa Damaso, Jerônimo deixou Roma em 385 e lançou-se em peregrinação, primeiramente à Terra Santa, silenciosa testemunha da vida terrena de Cristo, depois para o Egito, terra de escolha de muitos monges (cf. Contra Rufinum 3, 22; Ep. 108, 6-14). Em 386 firmou-se em Belém, onde, pela generosidade da Sra. Paola, foram construídos um mosteiro masculino, um feminino e uma hospedaria para os peregrinos que viajavam à Terra Santa, «pensando que Maria e José não tinham encontrado acolhida» (Ep. 108, 14). Ele ficou em Belém até a morte, e continuou desenvolvendo uma intensa atividade: comentou a Palavra de Deus; defendeu a fé, opondo-se vigorosamente a várias heresias; exortou os monges à perfeição; lecionou cultura clássica e cristã a jovens; acolheu com ânimo pastoral os peregrinos que visitavam a Terra Santa. Faleceu em sua cela, junto à gruta da Natividade, em 30 de setembro de 419/420.

A preparação literária e a vasta erudição permitiram a Jerônimo a revisão e a tradução de muitos textos bíblicos: um belíssimo trabalho para a Igreja e para a cultura ocidental. Com base nos textos originais em grego e em hebraico, e graças ao confronto com versões precedentes, ele fez a revisão dos quatro Evangelhos em língua latina, depois do Saltério e de grande parte do Antigo Testamento. Levando em conta o original hebraico e grego, dos Setenta, a clássica versão grega do Antigo Testamento que remonta a tempos antes do cristianismo, e das precedentes versões latinas, Jerônimo, ajudado por outros colaboradores, pôde oferecer uma tradução melhor: essa constitui a assim chamada «Vulgata», o texto «oficial» da Igreja latina, que foi reconhecido como tal pelo Concílio de Trento e que, depois da recente revisão, permanece sendo o texto «oficial» da Igreja de língua latina.

É interessante comprovar os critérios aos quais o grande biblista se ateve em sua obra de tradutor. Ele mesmo revela isso quando afirma respeitar até mesmo a ordem das palavras da Sagrada Escritura, pois nela, diz, «até a ordem das palavras é um mistério» (Ep. 57, 5), isto é, uma revelação.

Confirma também a necessidade de recorrer aos textos originais: «No caso de surgir uma discussão entre os Latinos sobre o Novo Testamento, pela leitura discordante dos manuscritos, recorríamos ao original, isto é, ao texto grego, no qual foi escrito o Novo Pacto. Da mesma forma, para o Antigo Testamento, se havia divergências entre os textos gregos e latinos, íamos ao texto original, em hebraico; assim, tudo aquilo que surge da fonte, podemos encontrar nos riachos» (Ep. 106, 2).

Jerônimo, por outro lado, comentou também muitos textos bíblicos. Para ele, os comentários devem oferecer múltiplas opiniões, «de forma que o leitor prudente, depois de ter lido as diversas explicações e de ter conhecido múltiplos pareceres – que tem de aceitar ou rejeitar –, julgue qual é o melhor e, como um especialista agente de câmbio, rejeite a moeda falsa» (Contra Rufinum 1, 16). [grifo meu]

Ele combateu com energia e vivacidade os hereges que não aceitavam a tradição e a fé da Igreja. Demonstrou também a importância e a validez da literatura cristã, convertida em uma autêntica cultura que, para então, já era digna de ser confrontada com a clássica; ele o fez redigindo «De viris illustribus», uma obra na qual Jerônimo apresenta as biografias de mais de cem autores cristãos.

Ele escreveu biografias de monges, ilustrando, junto a outros itinerários espirituais, o ideal monástico; além disso, traduziu várias obras de autores gregos. Por último, no importante Epistolário, autêntica obra-prima da literatura latina, Jerônimo se destaca por suas características de homem culto, asceta e guia das almas.

O que podemos aprender de São Jerônimo? Sobretudo, penso o seguinte: amar a Palavra de Deus na Sagrada Escritura. São Jerônimo diz: «Ignorar as escrituras é ignorar Cristo». Por isso, é importante que todo cristão viva em contato e em diálogo pessoal com a Palavra de Deus, que nos é entregue na Sagrada Escritura. [grifo meu]

Este diálogo com ela deve ter sempre duas dimensões: por um lado, deve haver um diálogo realmente pessoal, pois Deus fala com cada um de nós através da Sagrada Escritura e tem uma mensagem para cada um. Não temos de ler a Sagrada Escritura como uma palavra do passado, mas como Palavra de Deus que é dirigida também a nós, e procurar entender o que o Senhor quer nos dizer.

Mas para não cair no individualismo, temos de ter presente que a Palavra de Deus nos é dada precisamente para construir comunhão, para unir-nos na verdade de nosso caminho rumo a Deus. Portanto, apesar de que sempre é uma Palavra pessoal, é também uma Palavra que edifica a comunidade, que edifica a Igreja. Por isso, temos de lê-la em comunhão com a Igreja viva. O lugar privilegiado da leitura e da escuta da Palavra de Deus é a liturgia, na qual, ao celebrar a Palavra e ao tornar presente o Sacramento do Corpo de Cristo, atualizamos a Palavra em nossa vida e a fazemos presente entre nós.

Não podemos esquecer jamais que a Palavra de Deus transcende os tempos. As opiniões humanas chegam e vão embora. O que hoje é moderníssimo, amanhã será velhíssimo. A Palavra de Deus, pelo contrário, é Palavra de vida eterna, tem em si a eternidade, o que vale para sempre. Ao levar em nós a Palavra de Deus, levamos, portanto, a vida eterna.

Concluo com uma frase dirigida por São Jerônimo a São Paulino de Nola. Nela, o grande exegeta expressa precisamente esta realidade, ou seja, na Palavra de Deus recebemos a eternidade, a vida eterna. São Jerônimo diz: «Procuremos aprender na terra essas verdades cuja consistência permanecerá também no tempo» (Epístola 53, 10). [grifo meu]

Ensinamentos:

Ele dedicou sua vida ao estudo da Bíblia, até o ponto de que foi reconhecido por meu predecessor, o Papa Bento XV, como «eminente doutor na interpretação das Sagradas Escrituras». Jerônimo sublinhava a alegria e a importância de familiarizar-se com os textos bíblicos: «Não te parece que estás – já aqui, na terra – no reino dos céus, quando se vive entre estes textos, quando se medita neles, quando não se busca outra coisa? (Epístola 53, 10). Na realidade, dialogar com Deus, com sua Palavra, é em um certo sentido presença do Céu, ou seja, presença de Deus. Aproximar-se dos textos bíblicos, sobretudo do Novo Testamento, é essencial para o crente, pois ignorar a Escritura é ignorar a Cristo». É sua esta famosa frase, citada pelo Concílio Vaticano II na constituição «Dei Verbum» (n. 25).

«Enamorado» verdadeiramente da Palavra de Deus, ele se perguntava: «Como é possível viver sem a ciência das Escrituras, através das quais se aprende a conhecer o próprio Cristo, que é a vida dos crentes?» (Epístola 30, 7). A Bíblia, instrumento «com o qual cada dia Deus fala aos fiéis» (Epístola 133, 13), converte-se deste modo em estímulo e manancial da vida cristã para todas as situações e para toda pessoa. [grifo meu]

Ler a Escritura é conversar com Deus: «Se rezas – escreve a uma jovem nobre de Roma – falas com o Esposo; se lês, é Ele quem te fala» (Epístola 22, 25). O estudo e a meditação da Escritura tornam o homem sábio e sereno (cf. «In Eph.», prólogo). Certamente, para penetrar de uma maneira cada vez mais profunda na Palavra de Deus se precisa de uma aplicação constante e progressiva. Por este motivo, Jerônimo recomendava ao sacerdote Nepociano: «Ler com muita freqüência as divinas Escrituras; e mais, que o Livro não caia nunca de tuas mãos. Aprende nele o que tens de ensinar» (Epístola 52, 7). À matrona romana, Leta, ele dava estes conselhos para a educação cristã de sua filha: «Assegura-te de que estude todos os dias alguma passagem da Escritura. Que acompanhe a oração com a leitura e a leitura com a oração... Que ame os Livros divinos em vez das jóias e os vestidos de seda» (Epístolas 107, 9.12). Com a meditação e a ciência das Escrituras se «mantém o equilíbrio da alma» («Ad Eph.», prol.). Só um profundo espírito de oração e a ajuda do Espírito Santo podem introduzir-nos na compreensão da Bíblia: «Ao interpretar a Sagrada Escritura, sempre temos necessidade da ajuda do Espírito Santo» («In Mich.», 1, 1, 10, 15). [grifos meus]

Um amor apaixonado pelas Escrituras caracterizou portanto toda a vida de Jerônimo, um amor que ele sempre procurou suscitar nos fiéis. Recomendava a uma de suas filhas espirituais: «Ama a Sagrada Escritura e a sabedoria te amará; ama-a ternamente, e te custodiará, honra-a e receberás suas carícias. Que seja para ti como teus colares e teus brincos» (Epístola 130, 20). E acrescentava: «Ama a ciência da Escritura, e não amarás os vícios da carne» (Epístola 125, 11). [grifos meus]

Para Jerônimo, um critério metodológico fundamental na interpretação das Escrituras era a sintonia com o magistério da Igreja. Por nós mesmos, nunca podemos ler a Escritura. Encontramos demasiadas portas fechadas e caímos em erros. A Bíblia foi escrita pelo Povo de Deus e para o Povo de Deus, sob a inspiração do Espírito Santo. Só nesta comunhão com o Povo de Deus podemos entrar realmente com o «nós» no núcleo da verdade que o próprio Deus nos quer comunicar. Para ele, uma autêntica interpretação da Bíblia tinha de estar sempre em harmonia com a fé da Igreja Católica. Não se trata de uma exigência imposta a este livro desde o exterior; o Livro é precisamente a voz do Povo de Deus que peregrina e só na fé deste Povo podemos estar, por assim dizer, no tom adequado para compreender a Sagrada Escritura. Por este motivo, Jerônimo alentava: «Permanece firmemente unido à doutrina da tradição que te foi ensinada para que possas exortar segundo a sã doutrina e refutar quem a contradiz» (Epístola 52, 7). Em particular, dado que Jesus Cristo fundou sua Igreja sobre Pedro, todo cristão, concluía, deve estar em comunhão «com a Cátedra de São Pedro. Eu sei que sobre esta pedra está edificada a Igreja» (Epístola 15, 2). Portanto, com clareza, declarava: «Estou com quem estiver unido à Cátedra de São Pedro» (Epístola 16). [grifos meus]

Jerônimo não descuida do aspecto ético. Com freqüência reafirma o dever de recordar a vida com a Palavra divina. Uma coerência indispensável para todo cristão e particularmente para o pregador, a fim de que suas ações não contradigam seus discursos.

Assim, exorta ao sacerdote Nepociano: «Que tuas ações não desmintam tuas palavras, para que não suceda que, quando pregues na Igreja, alguém em sua intimidade comente: ‘Por que então tu não ages assim?’ Curioso mestre o que, com o estômago cheio, se pôr a pronunciar discursos sobre o jejum; inclusive um ladrão pode criticar a avareza; mas no sacerdote de Cristo, a mente e a palavra devem estar de acordo» (Epístola 52, 7). [grifo meu]

Em outra carta, Jerônimo confirma: «Ainda que tenha uma esplêndida doutrina, é vergonhosa a pessoa que se sente condenada pela própria consciência» (Epístola 127, 4). Falando da coerência, observa: o Evangelho deve traduzir-se em atitudes de autêntica caridade, pois em todo ser humano está presente a Pessoa do próprio Cristo. Dirigindo-se, por exemplo, ao presbítero Paulino, que depois chegou a ser bispo de Nola e santo, Jerônimo dá este conselho: «O verdadeiro templo de Cristo é a alma do fiel: adorna este santuário, embeleza-o, deposita nele tuas oferendas e recebe Cristo. Que sentido tem decorar as paredes com pedras preciosas se Cristo morre de fome na pessoa de um pobre?» (Epístola 58, 7). [grifos meus]
 
Jerônimo concretiza: é necessário «vestir Cristo nos pobres, visitá-lo nos que sofrem, dar-lhe de comer nos famintos, abrigá-lo nos que não têm um teto» (Epístola 130, 14). O amor por Cristo, alimentado com o estudo e a meditação, nos permite superar toda dificuldade: «Se nós amamos Jesus Cristo e buscamos sempre a união com Ele, o que é difícil nos parecerá fácil» (Epístola 22, 40). [grifos meus]

Jerônimo, definido por Próspero de Aquitânia como «modelo de conduta e mestre do gênero humano» («Carmen de ingratis», 57), deixou-nos também um ensinamento rico e variado sobre o ascetismo cristão. Recorda que um valente compromisso pela perfeição requer uma constante vigilância, freqüentes mortificações, ainda que com moderação e prudência, um assíduo trabalho intelectual ou manual para evitar o ócio (cf. Epístolas 125, 11 e 130, 15), e sobretudo a obediência a Deus: «Não há nada que agrade tanto a Deus como a obediência..., que é a mais excelsa das virtudes» («Hom. de oboedientia»: CCL 78, 552). Do caminho ascético podem também fazer parte as peregrinações. Em particular, Jerônimo as impulsionou à Terra Santa, onde os peregrinos eram acolhidos e hospedados em edifícios surgidos junto ao mosteiro de Belém, graças à generosidade da mulher nobre Paula, filha espiritual de Jerônimo (cf. Epístola 108, 14). [grifo meu]

Não se deve esquecer, por último, a contribuição oferecida por Jerônimo à pedagogia cristã (cf. Epístolas 107 e 128). Propõe-se formar «uma alma que tem de converter-se em templo do Senhor» (Epístola 107, 4), uma «jóia preciosíssima» aos olhos de Deus (Epístola 107, 13). Com profunda intuição, aconselha preservá-la do mal e das ocasiões de pecado, evitar as amizades equívocas ou que dissipam (cf. Epístola 107, 4 e 8-9; cf. Também Epístola 128, 3-4). Exorta sobretudo aos pais a criar um ambiente de serenidade e de alegria ao redor dos filhos, para que lhes estimulem no estudo e no trabalho, e lhes ajudem com o elogio (cf. Epístolas 107, 4 e 128, 1) a superar as dificuldades, favorecendo neles os bons costumes e preservando-lhes dos maus porque – diz, citando uma frase de Publilio Siro que havia escutado na escola – «dificilmente conseguirás corrigir-te das coisas às que te vais acostumando tranqüilamente» (Epístola 107, 8).

Os pais são os principais educadores dos filhos, os mestres da vida. Com muita clareza, Jerônimo, dirigindo-se à mãe de uma moça e depois ao pai, adverte, como expressando uma exigência fundamental de toda criatura humana que se chega à existência: «Que ela encontre em ti a sua mestra e que sua adolescência se oriente para ti maravilhada. Que nunca veja em ti nem em seu pai atitudes que a levem ao pecado. Recordai que podeis educá-la mais com o exemplo que com a palavra» (Epístola 107, 9). [grifo meu]

Entre as principais intuições de Jerônimo como pedagogo, é preciso sublinhar a importância atribuída a uma sã e integral educação desde a primeira infância, a peculiar responsabilidade atribuída aos pais, a urgência de uma formação moral religiosa, a exigência do estudo para conseguir uma formação humana mais completa.

Também há um aspecto bastante descuidado nos tempos antigos, mas que era considerado vital por nosso autor: a promoção da mulher, a quem reconhece o direito a uma formação completa: humana, acadêmica, religiosa, profissional. [grifo meu]

E precisamente hoje vemos como a educação da personalidade em sua integridade, a educação na responsabilidade ante Deus e ante os homens, é a autêntica condição de todo progresso, de toda paz, de toda reconciliação e de toda exclusão da violência. Educação ante Deus e ante o homem: a Sagrada Escritura nos oferece a guia da educação e, portanto, do autêntico humanismo.

Não podemos concluir estas rápidas observações sobre este grande padre da Igreja sem mencionar a eficaz contribuição que ofereceu à salvaguarda de elementos positivos e válidos da antiga cultura judaica, grega e romana na nascente civilização cristã. Jerônimo reconheceu e assimilou os valores artísticos, a riqueza dos sentimentos e a harmonia das imagens presentes nos clássicos, que educam o coração e a fantasia nos nobres sentimentos.

Sobretudo, pôs no centro de sua vida e de sua atividade a Palavra de Deus, que indica ao homem os caminhos da vida, e lhe revela os segredos da santidade. Por tudo isso, precisamente em nossos dias, podemos sentir-nos profundamente agradecidos a São Jerônimo. [grifo meu]

Fonte: Vaticano

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

As “crenças” dos ateus. Você as conhece?


Documento final da Convenção Mundial de Ateus, em Dublin- Irlanda.

Declaração sobre o Secularismo e o Lugar da Religião na Vida Pública.*

 
1. Liberdades Individuais

(a) Liberdades de consciência, de religião e de crença são privadas e ilimitadas. A liberdade de praticar a religião deve ser limitada apenas pela necessidade de respeitar os direitos e liberdades de outros.

(b) Todas as pessoas devem ser livres para participar igualmente do processo democrático.

(c) A liberdade de expressão deve ser limitada apenas pela necessidade de respeitar os direitos e liberdades de outros. Não deve haver o ‘direito a não ser ofendido’ na lei. Todas as leis de blasfêmia, implícita ou explícita, devem ser rejeitadas e não promulgadas.

2. Democracia Secular
 
(a) A soberania do Estado é derivada do povo e não de algum deus ou deuses.

(b) A única referência à religião na Constituição deve ser a asserção de que o Estado é secular.

(c) O Estado deve ser baseado na democracia, nos direitos humanos e na regulamentação legal. Políticas públicas devem ser formadas pela aplicação da razão, e não da fé religiosa, direcionada pela evidência.

(d) O governo deve ser secular. O Estado deve ser estritamente neutro em questões de religião ou ausência dela, não favorecendo nem discriminando uma ou mais de suas formas.

(e) As religiões não devem ter privilégios financeiros na vida pública, tais como o status livre de impostos para atividades religiosas, ou verbas públicas para promover a religião ou as escolas confessionais.

(f) A afiliação a uma religião não deve ser critério para nomeação de alguém para qualquer emprego no funcionalismo público.

(g) A lei não deve incentivar nem prejudicar qualquer direito, privilégio, poder ou imunidade com base em fé ou religião ou a ausência de ambas.

3. Educação Secular
 
(a) O ensino público deve ser secular. A educação religiosa, se for oferecida pelo Estado, deve estar limitada à educação sobre a religião e sua ausência.

(b) As crianças devem ser ensinadas sobre a diversidade de crenças filosóficas religiosas e não-religiosas de uma maneira objetiva, sem formação de fé nos períodos escolares.

(c) As crianças devem ser educadas no pensamento crítico e na distinção sobre fé e razão como guias para o conhecimento. A ciência deve ser ensinada livre de interferência religiosa.

4. Uma Lei para Todos**
 
(a) Deve haver uma lei secular para todos, democraticamente decidida e mesmo duramente aplicada, sem jurisdição para tribunais religiosos decidirem questões civis ou disputas familiares.

(b) A lei não deve criminalizar qualquer conduta privada pela razão de alguma doutrina de qualquer religião julgar tal conduta imoral, se essa conduta privada respeitar os direitos e liberdades de outros.

(c) Empregadores inclusive na área de serviço social com crenças religiosas não devem ter permissão para discriminar sobre qualquer base não essencial ao emprego em questão.

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* Esta declaração foi aprovada pela Atheist Alliance International, da qual a Liga Humanista Secular do Brasil (LiHS) é um membro. O texto foi votado e aprovado em assembleia geral pelos membros da LiHS em 31/07/2011, e portanto pode ser considerado representativo da visão da associação. Todas as posições oficiais da LiHS são votadas em assembleia geral e publicadas em ata.

** A convenção contou com a presença da sócia emérita da LiHS, a iraniana Maryam Namazie, que luta pelo fim da influência da lei islâmica da Sharia no Reino Unido encabeçando a organização One Law For All.